Duplos e consequências

“Nenhuma civilização é mais tatutológica do que a nossa.Nós fazemos proliferar duplos de nós mesmos, multiplicamos ao infinito as imagens e os sons dos fenômenos e, em seguida, atribuímos a esses duplos o estatuto de realidade. A vida humana – mediada pelas máquinas de aprisionar o carom- é cada vez mais uma vida vicária, uma vida delegada às imagens que povoam os chamados meios de codificação audiovisual.”

[MACHADO,Arlindo 2001 pg238]

“Tudo o que entre nós acontece tende a acontecer para uma câmera ou para um gravador.”

[MACHADO,Arlindo 2001 pg238]

As citações acima concluem a problemática maior de nosso tempo, e o interessante de se observar é que não só conferimos estatuto de realidade , mas algo maior, pois a partir do momento em que os duplos são capturados pela mídia, as consequências são inimagináveis.

Tais consequências passam a profilerar celebridades instantâneas, pessoas que só existem porque de alguma maneira seu duplo passou a circular por aí, e se assim não fosse, tal pessoa jamais exisitiria publicamente.

Dos infinitos exemplos existentes, alguns ilustram a questão aqui presente:

Se por algum mistério dos céus os colegas de Geyse não tivessem capturado o famoso vestido rosa com seus celulares e tivessem veiculado no youtube, que tivessem apenas descrito em palavras a situação [tal e qual Caminha], a garota da Uniban jamais teria chegado ao conhecimento geral, se tornando hoje mais uma figura do mundo dos famosos.

Os reality shows são o ápice do “Mãããe tô na Globo!!! Chama todo mundo pra ver!”.

Se há caminho rápido para a exposição, audiência e fama, nem que seja incrivelmente efêmera, este é um dos mais disputados e até eficientes, por assim dizer.

E se você não tem talento especial pra ir pro American Idol, nem capacidade de confinamento ou vestido rosa, é só mandar aquele vídeo sagaz pro youtube:

LEAVE MY DUPLO ALOOOONE!

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Andrea Tonacci em Máquina e Imaginário

No texto Máquina e Imaginário, Arlindo Machado cita o cineasta Andrea Tonacci e sua obra, como algo no contra fluxo das relações com os aparelhos de enunciação audivisual. Tonacci busca, mesmo que isso muitas vezes seja complicado, uma igualdade de poder entre ele, o homem com a câmera, e os índios. Transforma os sempre “objetos” indígenas, em agentes do seu discurso, dá verdadeiramente voz ao outro lado.

Para conhecer mais este cineasta e sua obra:

Filmografia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Andrea_Tonacci

Entrevista:

http://www.contracampo.com.br/79/artentrevistatonacci.htm

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Quando Cabral twittou: “Terra à vista!” …

… Pero Vaz de Caminha se preparou para escrever um longo scrap para o rei de Portugal, contando tudo sobre a terra nova e seus exóticos habitantes. Ou algo assim.

Sem máquinas, Caminha não podia aprisionar o carom dos índios brasileiros que encontrou junto com a embarcação de Cabral, mas tentou descrevê-lo da melhor maneira que pôde. Seria o primeiro contato e a primeira tentativa de descrição desses índios:

“A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador.”

Discovery Channel nos seus melhores momentos. Em seguida ele tenta escrever sobre a primeira interação das duas culturas, com seus objetos e animais alienígenas um para o outro. Não demora para surgir a primeira tentativa de troca:

“Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.”

Caminha termina a carta com uma sugestão:

“Contudo, o melhor fruto que dela (a terra, Brasil) se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!”

Quem consegue ler a carta do escrivão e não tentar imaginar como eram exatamente esses índios? Quem não teria vontade de assistir a um filme que um impossível cineasta Caminha teria feito? Naquele tempo, a única verdade que o rei de Portugal tinha dessa terra nova partia da carta de Caminha. Ele dependia dessa carta da mesma forma que dependemos hoje dos registros de imagens e sons. Na mesma linha paralela, a falta de tecnologia da época não impediu a carta de Caminha de ser obviamente tomada pela ótica do autor e não do objeto puro, tampouco impediu os rápidos movimentos iniciais da dominação cultural que estava por vir. Assim,  antes das máquinas de duplos, a máquina de poder se pôs a andar.

 

Link para a longa e interessantíssima carta na íntegra:

http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/carta

 

 

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A invenção de aprisionar o Carom

Em Máquinas de Aprisionar o Carom, Arlindo Machado cita no início do texto um livro do escritor argentino Bioy Casares intitulado A invenção de Morel:

“Tal como na Invenção de Morel de Bioy Casares, a vida deve ser sacrificada para que possa tornar-se significante para nós e para que, afinal, se transforme em representação.”

No livro de Bioy, um fugitivo da justiça resolve se esconder em uma ilha deserta no Pacífico onde há suspeitas de uma epidemia letal. Depois de algum tempo já estabelecido na ilha, ele encontra um grupo de veranistas no local e acaba se apaixonando por uma das mulheres do grupo, Faustine.

Porém, sem estabelecer contato com eles, já que é um fugitivo da justiça, o protagonista leva um tempo até descobrir que na realidade o grupo não pode enxergá-lo.

Flagrando uma conversa após muito se questionar e sofrer, acaba descobrindo que na realidade os veranistas não passam de imagens gravadas e projetadas por um aparelho criado por Morel que também faz parte do grupo.

Morel fez a máquina pois amava Faustine e ela o desprezava, assim, a única maneira de permanecer para sempre ao seu lado seria transformá-los em imagem e aceitar o dano desta decisão: a morte. A máquina de Morel, ao captar a imagem das pessoas, tirava-lhes a vida devido a radiação transmitida pelo aparelho.

O fugitivo, condenado à eterna solidão, resolve se submeter à máquina e também se tornar representação.

Como afirma Arlindo, o personagem sacrifica sua vida para dar algum significado a ela. Aprisiona seu carom para se libertar do peso da humanidade.

Link do livro digitalizado:

http://ebooksgratis.com.br/livros-ebooks-gratis/literatura-estrangeira/romance-a-invencao-de-morel-adolfo-bioy-casares/

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Índios “reais”?

Em nossa sociadade fundamentada nos duplos, onde a verdade só pode ser verdade quando foi for registrada por uma câmera, será possível ainda se encontrar e entender uma sociedade indígena pura e sem maquiagem?

O homem tem uma necessidade instintiva de conhecer mais, de descobrir o desconhecido, de crescer e entender tudo. Ele estuda o espaço, com suas galáxias e distâncias cada vez mais impossívelmente longas; da mesma forma, estuda o próprio corpo, descobrindo cada vez mais elementos menores e mais essenciais. A questão é que o descobrir um outro ser humano, uma outra cultura, não funciona da mesma forma. Como um ser pensante, não se trata de um elemento imóvel e imutável.

Como diz Arlindo, a maioria das civilizações indígenas do mundo já foram “civilizadas”, seja por métodos brutais ou por métodos “indolores”. Os índios de hoje já se acostumaram a presença da câmera e a maioria já assiste televisão e ouve rádio, se incorporou ao mundo “civilizado”. A chamada “pureza” da cultura indígena hoje é apenas uma imagem apresentada por eles exclusivamente para as câmeras. A troca de sua cultura por dinheiro virou prática comum, não só vendendo algum artesenato de aparência tradicional, mas também através de performances de rituais em troca de qualquer coisa. Não é necessário respeitar as datas ou motivos originais, basta uma emissora de televisão e dinheiro para que o ritual aconteça, provavelmente já transformado para agradar mais os olhos curiosos das câmeras brancas.

Alguns grupos indígenas já estão utilizando as máquinas para aprisionar o carom da forma que bem entenderem, talvez numa tentativa de se preservar. Se precisam se anunciar para uma sociedade que só entende essas imagens, pode ser esse o único caminho. Essas mesmas imagens também não deixam de ser um registro de uma sociedade que aceitou sua própria extinção e procura guardar o pouco que sobrou de si. Ainda assim, até que ponto pode se considerar que essas imagens de índios feitas por índios enquadram eles realmente? São eles os únicos que podem gravar quem eles realmente são? Aliás, será que realmente queremos conhecer os índios puros ou, na verdade, queremos apenas satisfazer um fetiche e confirmar uma imagem mental que temos deles, criada através de séculos?

De qualquer forma, essa imagem hoje é impossível. Os índios já não são mais os índios que foram, nossa percepção da verdade através dos duplos não condiz com a verdade desses índios. O máximo que podemos conseguir é uma imagem dos índios através de determinada ótica, seja a nossa ou a dos índios/cineastas de hoje. Um dia vamos gravar algo menor que um átomo, mas os índios puros, os que já se foram, estão além do alcance de qualquer lente a ser inventada.



 

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Duplos e Poderes?? Carom?? WTF!?

Creio eu que, muitos de vocês, visitantes do nosso ilustre blog intitulado: “Máquinas de Duplos e Poderes”, com breve descrição: Discussões sobre “Máquinas de Aprisionar o Carom” de Arlindo Machado, sentem-se um tanto deslocados nesse ambiente, afinal, não são todos que tiveram o prazer de ler o texto acima citado. O que são duplos? E poderes? Que máquina é essa? E, principalmente, que m**** é essa de Carom?

Pois bem, não se aflijam. Cá estou eu para situá-los nesse ambiente.

Tudo isso faz parte do pensamento desenvolvido pelo teórico Arlindo Machado (nosso mestre inspirador), a partir do conceito do Carom. Como ele próprio explica:

“Em língua jê, carom é o nome que os índios canelas apaneicras do Maranhão dão às imagens e às vozes das pessoas e das coisas, sejam elas atuais dos vivos ou virtuais dos mortos que retornam sob a forma de fantasmas”.

É aí que nós, seres do mundo audiovisual, concluímos que a nossa querida amiga Câmera, não passa de uma máquina capaz de capturar e aprisionar o carom.

A partir disso, o indivíduo que tem em suas mãos uma máquina como essa, possui um poder inestimável: O poder de deixar registrado qualquer acontecimento, ou como a maioria diz, poder registrar a realidade. Ou seja, seguindo este pensamento, não há máquina mais poderosa! O que ela faz, acabou se tornando algo inerente a nossa realidade e seus registros, irrevogáveis!! É simplesmente capaz de guardar a verdade, sem que ninguém possa contestar (como dito no post anterior).  Gerando assim, duplos. Cópias de tudo o que ela captura.

É dessa maneira que, mais uma vez, a imagem do topo é perfeita: Vemos uma tribo, idolatrando a Máquina (obviamente uma referência a Tv), como a verdade. Entende-se que quem tem o poder de registrar imagens, é o dono da verdade absoluta.

Espero ter esclarecido as dúvidas de alguns e que assim, possam acompanhar melhor este saudoso blog!

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Tão real que parece filme

O desejo incessante de aprisionar o próprio carom, a vida mediada por câmeras, vida vicária, vida de imagens.

A realidade e a verdade transformada em verdade do cinema, da televisão. “Tão real que parecia filme”, dizem alguns. Quando a imagem dita o que é real, o que aconteceu e o que não aconteceu. Tem imagem para provar? Tem, tem sim e aos montes.

O poder de poder se auto-retratar, se reconstruir, se ficcionalizar, de construir suas próprias narrativas e nelas espelhar os valores éticos e estéticos que consideram bons mesmo quando tais valores ganham ares de obrigação social. Também um retrato de um grupo, um grupo que enuncia a si mesmo através de imagens e sons forjados por ele próprio.

Deste grupo social e de um mundo dominado por imagens no qual ele está inserido é que nasceu Pacific, documentário de Marcelo Pedroso que se utiliza das imagens capturadas pelos seus próprios personagens, viajantes de um cruzeiro ruma à Fernando de Noronha, para construir seu discurso.

Discurso contundente e questionador, vindo essencialmente, senão, totalmente, de seu forte dispositivo. Só por essa opção estética e ética, já vale a pena visitar esta obra.

 

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